21 de setembro de 2026 | Tempo estimado de leitura: 5 minutos
Na semana passada, Finep e BNDES escolheram a Monashees para estruturar um fundo de inteligência artificial com estimativa de mobilizar até R$ 500 milhões. O anúncio trouxe um critério preciso: o fundo pretende apoiar empresas nas quais a IA seja central ao modelo de negócio e à geração de valor.
O critério pertence ao universo das startups. Uma indústria familiar tem outra história, outra estrutura de capital e clientes com expectativas bem diferentes. Para uma empresa média, o anúncio serve como convite a definir o papel econômico da IA e a examinar quais capacidades poderiam chegar ao mercado.
Escrever e-mails, resumir documentos e acelerar tarefas economiza horas e reduz atrito interno. O produto chega ao cliente como antes, com a mesma promessa e quase sempre pelo mesmo preço. A tecnologia melhora a execução sem ampliar a proposta de valor.
Projetos comercialmente relevantes começam a aparecer quando a empresa reconhece algo que passou a saber, prever ou executar por um custo viável. Essa capacidade pode dar origem a um serviço que antes seria caro demais, lento demais ou simplesmente impossível de oferecer.
Uma pesquisa encomendada pela AWS à Strand Partners estima que metade das empresas brasileiras já usa IA. Entre as adotantes, 58% estariam no nível mais básico, concentradas em ganhos incrementais de eficiência, enquanto apenas 15% foram classificadas no nível avançado, ligado à transformação ou à criação de modelos de negócio.
A Softex chegou a números menores de adoção e informou que 79,8% das empresas usuárias recorriam a soluções disponíveis no mercado. As metodologias são diferentes e os percentuais não permitem uma comparação direta. Os dois estudos ajudam a enxergar o mesmo movimento: o acesso se espalhou e boa parte das empresas compra recursos já disponíveis.
Com ferramentas semelhantes ao alcance de muitos concorrentes, a diferença aparece naquilo que cada empresa consegue fazer com o próprio repertório. Para o cliente, valor pode significar receber um alerta cedo, evitar uma parada, reduzir o risco de uma decisão ou acessar um serviço que antes custaria caro demais.
Empresas médias guardam produtos potenciais dentro de serviços que hoje parecem apenas parte do trabalho. Pense numa distribuidora que conhece os sinais de que uma máquina começará a falhar, num escritório contábil que reconhece padrões antes de um problema de caixa, ou num fabricante que sabe quais formas de uso reduzem a vida útil de um componente.
Os exemplos são hipóteses e indicam onde procurar. Esse conhecimento costuma estar espalhado em planilhas, mensagens, inspeções, telefonemas e na cabeça de poucas pessoas. A IA ajuda a reuni-lo e entregá-lo com frequência, na forma de um alerta, uma recomendação, um diagnóstico, uma garantia ou um acompanhamento contínuo.
Um projeto de descoberta ganha relevância comercial quando parte de um grupo específico de clientes. A investigação procura a decisão que custa caro, a informação que chegaria a tempo de mudá-la e o valor econômico produzido por essa mudança. É daí que pode surgir uma oferta.
A ideia começa a ganhar forma quando a empresa consegue dizer quem compra, o que recebe, com que frequência, por qual preço, usando quais dados e assumindo qual responsabilidade. Essas respostas também revelam onde o projeto pode quebrar antes de qualquer investimento relevante.
Para muitas empresas, a eficiência interna continuará sendo o melhor destino para a IA. Margens apertadas tornam valiosa qualquer redução consistente de tempo e erro. Alguns clientes preferem atendimento humano e produtos simples. A decisão depende da economia do negócio e do comportamento real de quem compra.
Economizar tempo é uma iniciativa operacional legítima. Sua importância pode ser medida em horas, erros e margem. A criação de uma nova receita exige outra investigação, voltada ao conhecimento que o mercado reconhece e aceita comprar. Leve uma pergunta à próxima reunião: que parte do conhecimento da empresa poderia virar uma oferta que hoje ainda não existe?
Sua empresa está avaliando um investimento em IA, produto digital ou transformação, mas ainda não possui clareza suficiente para avançar? Escreva para vinicius.debian@theneil.com.br com FASE ZERO no assunto e descreva a decisão que precisa ser tomada.
Fontes:
• Finep, “Finep e BNDES selecionam a Monashees para gestão de fundo de IA de R$ 500 mi”, 14 set. 2026.
• Softex, “TICs 2026: terceiro caderno do estudo do Observatório Softex”, 9 set. 2026



