24 de julho de 2026 | Tempo estimado de leitura: 5 minutos
A pergunta mudou
Toda conversa séria sobre IA nas empresas passa por uma fase meio constrangedora. Primeiro vem a pergunta de sempre: onde vamos colocar IA? Parece moderna e tem “sabooor” de inovação. Dá para abrir um comitê, contratar uma consultoria e sair da sala com três pilotos bonitos.
Só que a pergunta está errada.
Colocar IA em cima da empresa atual é como instalar piloto automático num carro desalinhado. Ele até anda. Só não pergunte para onde.
A pergunta que importa é mais indigesta: que tipo de empresa continua fazendo sentido quando parte do trabalho passa a ser executada por agentes?
Em 22 de julho de 2026, a OpenAI anunciou o Presence, um produto corporativo para colocar agentes em workflows de clientes e operações internas. A promessa não é só responder perguntas. É conectar sistemas, aplicar políticas, seguir permissões, executar ações aprovadas, registrar sessões, escalar casos e melhorar com sinais de produção.
Esse é o fato da semana.: a IA saiu do chat bonitinho e entrou no encanamento da empresa. Quando isso acontece, workflow deixa de ser sequência de tarefas e vira uma forma de autoridade codificada.
As empresas foram desenhadas para uma escassez humana
A empresa moderna também aprendeu a evitar. Não só como uma pessoa que abre o ChatGPT para adiar uma conversa difícil. Mas de um jeito mais caro, mais respeitável e com uma sala de reunião pra dar status de confiabilidade, empilhando humanos entre intenção, execução e enrolação.
Um cliente reclamava, alguém registrava e outro sujeito classificava. Um terceiro aprovava e um gerente decidia. Em seguida, um sistema era atualizado, para um relatório explicar, dias depois, como o incêndio foi apagado (ou já espalhado).
Chamamos isso de processo. E às vezes era processo mesmo. Mas muitas vezes era uma forma elegante de não encarar a pergunta central: quem pode decidir, com base em quê, carregando qual risco?
A burocracia foi brilhante porque resolvia uma limitação real. Humanos têm contexto e julgamento. Eles também esquecem, cansam, seguram território, leem a mesma regra de cinco jeitos, ficam de mau humor e precisam dormir. E assim, formulários substituíram memória e aprovações substituíram aconfiança. Reuniões substituíram decisões e planilhas substituíram conversas honestas. Um clássico do mundo corporativo.
Mas IA mexe nessa status quo. Um agente pode ler uma política, consultar histórico, cruzar dados, responder a um cliente, executar uma ação permitida e registrar o que fez. Erra? Claro. Às vezes com uma segurança que chega a ser artística. Mas seu custo de repetição e acompanhamento muda o jogo.
O efeito não é uma empresa sem gente, é uma empresa com menos esconderijo. O que antes passava por bom senso começa a aparecer como regra. O que era exceção de corredor vira exceção consciente. O que era “fala com a fulana que ela sabe” precisa virar critério, permissão e caminho de escalonamento.
A IA, quando entra no workflow, faz com a empresa o que já faz com o indivíduo: revela aquilo que estava sendo terceirizado. No caso da pessoa, às vezes é iniciativa. No caso da organização, quase sempre é clareza.
A descoberta pode ser meio humilhante: muitos processos só funcionavam porque pessoas inteligentes compensavam sistemas ruins. Isso nunca foi estratégia, mas gambiarra premium.
Adoção não é absorção
Os números contam uma história quase cômica. A McKinsey mostra que 88% das organizações já usam IA em pelo menos em uma função. O número parece maduro, mas nem de longe é: só 39% relatam impacto no EBIT no nível da empresa. Ou seja: todo mundo colocou IA em algum lugar, mas pouca gente sabe onde ela está realmente mudando o resultado.
A Microsoft chegou a uma conclusão parecida no Work Trend Index 2026. Em muitos casos, as pessoas estão prontas, mas os sistemas ao redor delas, não. Cultura, apoio dos gestores e práticas de talento explicam mais que o dobro do impacto percebido da IA quando comparados a fatores individuais.
Treinar pessoas ajuda. Entretanto, não muda a física da empresa. Se a aprovação continua em quatro camadas, se o dado continua picado, se o jurídico só aparece quando o paciente já está no centro cirúrgico, a IA vira prótese elegante em um corpo mal desenhado.
A Deloitte aponta a mesma fratura. Cerca de 60% dos trabalhadores já têm ferramentas sancionadas de IA, contra menos de 40% um ano antes. Mesmo assim, só 30% das empresas dizem redesenhar processos-chave ao redor de IA. O resto colocou inteligência nova em estradas velhas.
O problema não é a IA não funcionar. O problema é ela funcionar o bastante para expor a bagunça.
O workflow virou contrato
A palavra workflow parece inofensiva, mas ela esconde um enorme poder.
Um workflow decide quem pode agir, o que conta como evidência e quando uma exceção é aceitável. Decide ainda quem segura o rojão se algo der errado.
Na empresa humana, muita coisa ficava implícita. O gerente experiente sabia quando ignorar a regra, a pessoa de atendimento sabia quando escalar. O financeiro sabia qual cliente não deveria cair na esteira padrão de cobrança.
Com agentes, essa névoa se dissipa. Não basta pedir que a IA “resolva tickets": é preciso definir quais tickets, com qual acesso, usando qual política, diante de qual exceção e em que momento uma pessoa deve entrar.
Por isso o Presence é um sinal maior que mais um produto. Ele empacota uma disciplina: agentes com políticas, permissões, avaliações, simulações, histórico de ações e aprovação humana.
O agente não é interface. É um pedaço móvel de um contrato operacional.
A Gartner joga água fria no entusiasmo, como sempre alguém precisa fazer na festa. A consultoria prevê que mais de 40% dos projetos de IA agentic serão cancelados até o fim de 2027 por custo crescente, valor pouco claro ou controle de risco insuficiente.
O recado é simples: Os agentes de IA não salvam processo ruim. Só deixam o erro mais rápido, mais barato de repetir e mais difícil de atribuir.
A nova liderança desenha direitos de decisão
A transformação digital ensinou empresas a falar de produto, squads e jornadas. Foi útil. Também produziu uma quantidade respeitável de post-it colorido e cerimônia com nome em inglês.
A IA agentic muda o objeto. O centro passa a ser o direito de decisão.
O que a máquina pode decidir sozinha? O que ela pode sugerir, mas não executar? O que precisa ser aprovado? O que deve continuar humano mesmo se a automação for possível? O que precisa ser lento de propósito?
BCG e MIT Sloan mostram a ambiguidade. Em pesquisa global com 2.102 executivos, 35% das empresas já usavam IA agentic e 44% planejavam adotar em breve. Ao mesmo tempo, 47% não tinham estratégia clara.
Essa entidade estranha não cabe nas categorias antigas. Parece colega, escala como software, consome como capital e erra como estatística.
Daí a importância do papel que o Financial Times chamou de workforce orchestrator. O nome pode mudar. A função deve ficar. Alguém precisará desenhar como humanos, agentes e sistemas dividem autoridade.
Esse papel não será só de RH. Nem só de tecnologia. Será uma função de desenho institucional.
O velho organograma distribuía autoridade por cargos. O novo mapa distribuirá autoridade por workflows.
O risco é automatizar a cegueira do seu negócio
Tem gente que diz que basta redesenhar os processos por meio de workflows com IA para colher ganhos exponenciais. Essa é a versão preferida de quem acha que toda fricção é desperdício.
Mas nem sempre é assim. Algumas fricções são memória ética e protegem o cliente contra a pressa da empresa. Outras existem porque o mundo é mais bagunçado que o processo.
Um agente que resolve 75% dos contatos de suporte sem humano, como a OpenAI afirma sobre seu próprio canal telefônico em inglês usando Presence, é um sinal forte. Mas a métrica não encerra a conversa: quais 75%? Quem observa os 25% restantes?
Stanford HAI mostra o tamanho do dinheiro na mesa: investimentos corporativos globais em IA chegaram a US$ 581,7 bilhões em 2025. Muito capital procurando produtividade costuma produzir atalhos antes de produzir sabedoria.
A pergunta não é se agentes podem executar workflows. Ele com certeza podem. A pergunta é se a empresa merece essa velocidade.
A virada
Promessas de ganhos de desempenho quase inacreditáveis devem ser encaradas com ceticismo. Falar em “100 vezes melhor” é, por enquanto, mais uma ambição do que uma evidência amplamente comprovada.
Mas isso não muda o ponto central: a próxima vantagem competitiva não virá do modelo mais recente, ma da forma como a empresa é desenhada.
A empresa do século XX era organizada como uma pirâmide de autoridade. A empresa digital transformou essa pirâmide em uma rede de sistemas. A próxima evolução será uma organização construída sobre workflows vivos: observáveis, mensuráveis, ajustáveis e parcialmente autônomos.
Essa mudança altera a principal pergunta da liderança. Não basta discutir onde usar IA. A questão passa a ser: quais decisões e processos já estão maduros o suficiente para operar de forma autônoma? Quais ainda dependem de julgamento, contexto e experiência humana?
Toda empresa tem processos. Pouquíssimas têm processos estruturados o suficiente para merecer autonomia. Pense nisso.
Resumo final (em poucas palavras)
A tese central: a competição em IA está migrando da adoção de ferramentas para o redesenho de workflows como unidades de autoridade executável.
O OpenAI Presence, anunciado em 22 de julho de 2026, mostra que agentes corporativos já estão sendo empacotados com políticas, permissões, avaliações, escalonamento e melhoria contínua.
McKinsey, Microsoft e Deloitte convergem: uso de IA é amplo, mas impacto empresarial depende de absorção organizacional, não apenas treinamento individual.
A pergunta fraca é onde colocar IA. A pergunta forte é quais decisões da empresa já merecem virar execução semiautônoma.
O risco é acelerar workflows ruins. A vantagem estará em tornar decisões executáveis sem abrir mão de julgamento, confiança e responsabilidade.
Fontes
OpenAI, Introducing OpenAI Presence, 22 de julho de 2026: https://openai.com/index/introducing-openai-presence/
OpenAI Help Center, OpenAI Presence: https://help.openai.com/en/articles/20001405
OpenAI, ChatGPT is now a partner for your most ambitious work, 9 de julho de 2026: https://openai.com/index/chatgpt-for-your-most-ambitious-work/
McKinsey, The State of AI: Global Survey 2025: https://www.mckinsey.com/capabilities/quantumblack/our-insights/the-state-of-ai
Microsoft WorkLab, 2026 Work Trend Index: https://www.microsoft.com/en-us/worklab/work-trend-index/agents-human-agency-and-the-opportunity-for-every-organization
Gartner, Agentic AI project cancellation prediction, 25 de junho de 2025: https://www.gartner.com/en/newsroom/press-releases/2025-06-25-gartner-predicts-over-40-percent-of-agentic-ai-projects-will-be-canceled-by-end-of-2027
BCG, Managing the Machines That Manage Themselves, 2025: https://www.bcg.com/publications/2025/machines-that-manage-themselves
BCG press release sobre pesquisa MIT Sloan Management Review e BCG, 18 de novembro de 2025: https://www.bcg.com/press/18november2025-agentic-ai-blurs-line-tool-teammate
Deloitte, State of AI in the Enterprise 2026: https://www.deloitte.com/us/en/about/press-room/state-of-ai-report-2026.html
Deloitte Insights, Agentic AI strategy: https://www.deloitte.com/us/en/insights/topics/technology-management/tech-trends/2026/agentic-ai-strategy.html
Stanford HAI, Inside the AI Index 2026: https://hai.stanford.edu/news/inside-the-ai-index-12-takeaways-from-the-2026-report
Financial Times, Why workforce orchestrator is the next hot job, 23 de julho de 2026: https://www.ft.com/content/d8d5490a-99dc-41fd-9e05-c8143721c539



